Aurea ConcordiaSimbolismo

A Linguagem dos Símbolos

Como as tradições falam sem definir

Um estudante que abre pela primeira vez um tratado alquímico, uma prancha cabalística ou um emblema rosacruz costuma ter a mesma reação: isto poderia ter sido dito de forma direta. A impressão é compreensível e está errada, e desfazê-la é o assunto desta lição. As tradições não escrevem em símbolo porque gostam de mistério nem porque temem perseguição — escrevem assim porque o símbolo faz algo que a definição não faz, e o resto da via depende de entender o quê.

Uma definição transfere conteúdo. Ela pega o que estava na cabeça de quem escreve e instala na cabeça de quem lê, e quando a transferência se completa, acabou: o leitor sabe o que o autor sabia, e o texto pode ser descartado. É um mecanismo excelente, e é por isso que manuais técnicos, códigos legais e artigos científicos são escritos assim. O problema é que ele só funciona quando o conteúdo é da mesma natureza nas duas cabeças — quando aquilo que se quer transmitir não depende do estado de quem recebe.

O símbolo opera de outro modo. Ele não entrega um conteúdo: instala uma pergunta que continua trabalhando depois de fechado o livro. E como a pergunta trabalha sobre quem a recebeu, o resultado varia com quem recebeu — o que numa transmissão de informação seria falha, aqui é a função. A mesma imagem diante de duas pessoas produz duas leituras, e diante da mesma pessoa em dois momentos da vida produz outras duas. As tradições escolheram esse mecanismo porque aquilo que pretendem transmitir não cabe num conteúdo fixo.

Daí a formulação que aparece em escolas sem contato entre si: o símbolo não se explica, se frequenta.

Isso tem consequências práticas imediatas para quem estuda. A primeira é que ler rápido não funciona. A segunda é que a releitura não é revisão — é operação diferente, porque o leitor mudou. A terceira, e a mais desconfortável, é que existe um ponto em que a dificuldade de um texto não está no texto. Quando você encontrar uma passagem que resiste, a pergunta útil não é se o autor poderia ter sido mais claro, e sim o que falta em você para que aquilo se abra: vocabulário, prática ou tempo. Nenhuma das três se resolve lendo de novo com mais força.

A história do Ocidente tem um momento em que essa linguagem foi levada mais longe do que em qualquer outro, e vale conhecê-lo porque é dele que descende quase tudo o que estudamos aqui. Em 1419, um manuscrito grego chegou a Florença: a Hieroglyphica de Horápolo, que se propunha a explicar os hieróglifos egípcios. O texto afirmava que cada sinal egípcio não representava um som, e sim uma ideia inteira, apreendida de uma vez — o abutre significaria mãe, a lebre significaria abertura, e assim por diante. Para os humanistas do Renascimento, aquilo foi uma revelação: existiria uma escrita anterior às línguas, capaz de dizer conceitos sem passar por palavras.

Historicamente, Horápolo estava errado. Os hieróglifos são um sistema misto, com valor fonético, e Champollion demonstrou isso em 1822 a partir da Pedra de Roseta. Mas repare no que a crença produziu antes de ser corrigida: três séculos de invenção de linguagem visual na Europa. Os humanistas passaram a construir seus próprios hieróglifos — imagens compostas para dizer, de uma vez, aquilo que uma frase diria aos poucos. É a origem direta do emblema, da divisa, da prancha alquímica e do frontispício gravado.

O formato se fixou em 1531, com o Emblematum liber de Andrea Alciato, e teve sucesso imediato: centenas de livros de emblemas foram impressos na Europa nos duzentos anos seguintes. A estrutura é de três partes, e ela é instrutiva porque mostra como a tradição pensava a relação entre imagem e palavra.

ParteNomeFunção
Título brevemotto ou lemadá a chave, sem explicar
Imagempicturacarrega o sentido, e é o centro
Verso ou glosasubscriptiocomenta, sem esgotar

Repare na economia da coisa: nenhuma das três partes basta sozinha, e nenhuma delas explica as outras. O lema sem a imagem é uma frase enigmática; a imagem sem o lema é uma cena arbitrária; a glosa sem as duas é um comentário sobre nada. O sentido nasce do encaixe — que é exatamente o que a palavra symbolon já dizia. O emblema é a forma impressa daquilo que o símbolo é por definição.

Na mesma direção, e de forma ainda mais radical, existe uma tradição de usar imagens como instrumento de operação mental, e não apenas de comunicação. É a arte da memória, atribuída na Antiguidade ao poeta Simônides e sistematizada pelos retóricos romanos: para reter um discurso longo, associava-se cada parte dele a uma imagem vívida, e as imagens eram alojadas mentalmente em lugares de um edifício conhecido. Percorrer o edifício por dentro devolvia o discurso na ordem.

No Renascimento, essa técnica foi levada a uma ambição muito maior. Giulio Camillo projetou, na primeira metade do século XVI, um Teatro da Memória — uma estrutura de madeira em que o espectador ocupava o palco e via, disposto nas bancadas, um sistema de imagens que pretendia conter a ordem inteira do universo. Giordano Bruno, décadas depois, escreveu tratados em que as imagens da memória deixam de ser auxiliares e passam a ser operativas: manipular as imagens seria, para ele, operar sobre o que elas representam. Aqui a linguagem simbólica deixa de descrever o mundo e passa a agir sobre ele, e é desse ponto que boa parte da magia renascentista deriva.

Antes disso, a Idade Média já tinha organizado uma teoria de como ler em camadas, e ela continua sendo o instrumento mais útil que existe para quem estuda texto simbólico. A doutrina dos quatro sentidos da Escritura sustenta que uma mesma passagem se lê em quatro níveis simultâneos, sem que um anule os outros. Dante a aplica explicitamente à própria Comédia, na carta que endereça a Cangrande della Scala.

SentidoPergunta que respondeExemplo no Êxodo
Literalo que aconteceuIsrael sai do Egito
Alegóricoo que isso figuraa redenção
Moralo que devo fazersair da própria servidão
Anagógicopara onde isso apontaa passagem ao estado definitivo

A utilidade disso é imediata e vale para muito além da Escritura. Diante de um texto alquímico, das quatro perguntas a primeira quase sempre tem resposta material — há substância, há fogo, há tempo de cozimento — e as outras três continuam abertas ao mesmo tempo. A discussão sobre se a alquimia era química ou psicologia, que ocupou o século XX inteiro, pressupõe que as camadas se excluem. A tradição medieval que formou aqueles autores não pressupunha nada disso.

Método para trabalhar um símbolo

  • Descreva antes de interpretar. Quantos elementos há, que posição ocupam, o que se repete, o que está acima e abaixo. A descrição é lenta de propósito: ela impede que a primeira associação tome conta do campo.
  • Localize a fonte. Que obra, que ano, que tradição. O mesmo pelicano diz coisas diferentes numa gravura alquímica e num brasão episcopal, e a diferença não é detalhe.
  • Pergunte o que a imagem mostra que uma frase não mostraria. Quase sempre é relação — simultaneidade, hierarquia, contenção, oposição —, e é essa a razão de ter sido desenhada em vez de escrita.
  • Registre sua leitura por escrito, com data. Meses depois, releia. A distância entre as duas leituras é a medida do que se moveu em você, e é o dado que mais interessa.
  • Resista a fechar. Uma interpretação que resolve tudo e encerra o assunto costuma indicar que você encontrou uma alegoria dentro do símbolo, e parou ali.

Atenção: Existe um excesso na direção oposta, e ele é tão prejudicial quanto a leitura rasa. A mente humana encontra padrão em qualquer material suficientemente rico, e um sistema simbólico é material riquíssimo: com correspondências bastantes, tudo se liga a tudo. O sinal de que a leitura saiu do trilho é ela ter deixado de poder estar errada — se nenhuma observação possível contrariaria a sua interpretação, você não está mais lendo o símbolo, está projetando sobre ele. A tradição conhece esse risco e responde com disciplina de método: descrição antes de interpretação, fonte antes de sentido, registro datado antes de conclusão.

Atenção: Cuidado também com os dicionários de símbolos. São úteis, e a utilidade é real: reúnem ocorrências de culturas distantes e poupam anos de leitura. Mas a forma de verbete sugere que cada símbolo tem um significado a ser consultado, o que é precisamente o contrário do que um símbolo é. Use-os como quem consulta um atlas antes de viajar — para saber o que existe, e não para dispensar a viagem.

Uma última precisão, que vale para todas as vias adiante: símbolo não é sinônimo de imagem. Um gesto é símbolo. Um número é símbolo. Um intervalo de silêncio dentro de um rito é símbolo. A sequência de cores de uma operação alquímica é símbolo. O que define não é o suporte visual, e sim o modo de operar — algo que remete a outra coisa sem se deixar substituir por ela. Quando você tiver isso claro, metade da literatura hermética que hoje parece obscura passa a ser simplesmente densa, que é outra coisa.

Na prática: Escolha um símbolo e conviva com ele por um mês inteiro, sem trocar. Uma forma geométrica basta, e quanto mais simples melhor. Cinco minutos por dia, olhando e anotando o que aparece, sem julgar se é bom ou relevante. No fim do mês, releia as anotações na ordem em que foram feitas. A progressão do que você foi capaz de ver naquela mesma figura vai lhe ensinar mais sobre linguagem simbólica do que qualquer tratado a respeito — inclusive este.

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