Aurea Concordia › Rosacrucianismo
Os Três Manifestos
Fama, Confessio e as Núpcias Químicas
O rosacrucianismo não começa por uma ordem: começa por três textos anônimos publicados na Alemanha entre 1614 e 1616. Eles anunciam a existência de uma fraternidade secreta, descrevem sua origem e convidam os sábios da Europa a procurá-la. A ordem se apresenta como invisível, e o convite pede que os dignos se manifestem — os irmãos é que procurariam por eles.
| Obra | Ano | O que traz |
|---|---|---|
| Fama Fraternitatis | 1614 | a história de Christian Rosenkreutz e a abertura de seu túmulo |
| Confessio Fraternitatis | 1615 | a doutrina e o programa de reforma geral |
| Núpcias Químicas | 1616 | narrativa alegórica em sete jornadas, de tom alquímico |
A narrativa da Fama é precisa demais para ser casual. Christian Rosenkreutz teria nascido em 1378, viajado ao Oriente em busca de sabedoria, retornado para fundar uma fraternidade de poucos membros e morrido em 1484. Seu sepulcro, oculto, teria sido reaberto cento e vinte anos depois — em 1604 —, revelando o corpo incorrupto e uma câmara coberta de inscrições. A descoberta é o que justifica a publicação.
Atenção: Duas coisas devem ser sabidas por quem estuda. Fora dos manifestos, não há registro documental de Christian Rosenkreutz nem de membro identificado da fraternidade — o que a própria Fama explica, já que a ordem se descreve como invisível e obrigada ao sigilo por cem anos. E Johann Valentin Andreae, teólogo luterano de Württemberg, reivindicou a autoria das Núpcias Químicas, chamando-as de ludibrium. Há quem leia a palavra como confissão de brincadeira e quem a leia como o recuo prudente de um clérigo diante da repercussão. As duas leituras têm defensores sérios.
O que se seguiu é o fato histórico interessante. Entre 1614 e 1620 a Europa produziu centenas de escritos em resposta: cartas abertas endereçadas aos irmãos invisíveis, defesas, refutações, gente publicando anúncios para se candidatar. É o chamado furor rosacruz. O apelo dos manifestos moveu a Europa culta de uma forma que poucos textos moveram, e é dessa efervescência que nasce o rosacrucianismo tal como o conhecemos.
Na prática: Vale ler os manifestos como o que eles se declaram: um chamado à reforma geral do saber, escrito em código, num momento de tensão religiosa às vésperas da Guerra dos Trinta Anos. É nesse registro que o texto opera, e é ali que ele continua operando quatro séculos depois.