Aurea ConcordiaHermetismo

Origens do Hermetismo

Hermes Trismegisto e o Corpus Hermeticum

O hermetismo é a matriz de quase tudo o que se estuda nesta escola. A alquimia toma dele o princípio de operação, a astrologia toma a doutrina da correspondência, a cabala hermética toma o modelo de emanação, e a magia cerimonial toma a premissa de que agir num plano repercute nos outros. Quem entende hermetismo lê as demais vias com outra desenvoltura — e é por isso que ele vem cedo no percurso.

A figura que dá nome a tudo isso é Hermes Trismegisto, o três vezes grande. Ele nasce de um encontro entre dois mundos: os gregos do Egito helenístico identificaram o deus egípcio Tot — senhor da escrita, da medida e do conhecimento — com o seu próprio Hermes, mensageiro entre os planos. Da fusão dos dois surge uma terceira figura, que a tradição passa a tratar como sábio antiquíssimo, mestre de mestres, autor de uma revelação primeira.

O epíteto três vezes grande recebeu várias explicações ao longo dos séculos, e a mais difundida é também a mais elegante: seria grande como filósofo, como sacerdote e como rei — os três domínios que nenhuma pessoa reúne. Outras fontes ligam o três à tríplice sabedoria que ele teria dominado, correspondente às três partes da filosofia hermética que você encontrará adiante: alquimia, astrologia e teurgia.

O corpo de textos atribuídos a ele é maior do que se costuma supor, e vale conhecer a divisão, porque ela explica muita confusão. De um lado, o chamado hermetismo filosófico: tratados sobre a origem do cosmos, a natureza da alma e o retorno ao princípio. De outro, o hermetismo técnico: um volume muito maior de escritos sobre astrologia, medicina astrológica, propriedades de pedras e plantas, fabricação de talismãs. As duas correntes circularam juntas na Antiguidade e foram separadas pela erudição moderna, que se interessou pela primeira e ignorou a segunda por bastante tempo.

ObraO que éTrecho central
Corpus Hermeticumdezessete tratados em gregoo Poimandres, sobre a criação e a queda
Asclépiodiálogo conservado em latimo lamento pelo fim do Egito e a defesa da teurgia
Tábua de Esmeraldatexto brevíssimo, via árabea fórmula da correspondência
Fragmentos de Estobeuantologia bizantinaa Coré Kosmou, sobre a descida das almas

O primeiro tratado do Corpus, conhecido como Poimandres, é o mais importante e merece ser lido por inteiro em algum momento. Nele, uma inteligência suprema se apresenta ao narrador e lhe mostra a origem de tudo: a luz que se diferencia, o verbo que ordena, o Homem primordial que se inclina sobre a natureza e, ao ver o próprio reflexo, se enamora dele e desce. É desse mergulho no reflexo que nasce a condição humana, dupla por natureza — mortal pelo corpo, imortal pelo princípio. E a proposta do texto é o caminho de volta.

Vale saber o que esses textos afirmam, e não apenas de onde vieram. O hermetismo filosófico parte de um Deus que é ao mesmo tempo tudo e nada do que existe — ele contém o cosmo, e o cosmo contém o ser humano. Não há, portanto, ruptura entre criador e criatura: há graus de uma mesma realidade. Daí decorre a afirmação mais audaciosa do corpus, repetida em vários tratados: o ser humano é capaz de conhecer o divino porque é da mesma natureza, e esse conhecimento — gnosis, no vocabulário dos textos — é o próprio caminho de retorno.

Essa posição tem uma consequência que distingue o hermetismo de quase tudo o que lhe é contemporâneo. Enquanto o gnosticismo, nascido no mesmo século e no mesmo ambiente, trata o mundo material como obra de um artífice inferior e portanto como prisão, o hermetismo trata o cosmo como belo, ordenado e digno de admiração. O Asclépio chega a chamar o mundo de segundo deus. São duas respostas opostas à mesma pergunta, formuladas lado a lado — e é útil guardar isso, porque você vai encontrar as duas adiante e elas não se misturam.

A história europeia desses textos tem uma data e uma cena. Em 1463, Cosme de Médici mantinha Marsílio Ficino traduzindo Platão quando um manuscrito grego chegou de Constantinopla trazendo o Corpus Hermeticum. Cosme mandou interromper Platão e traduzir Hermes primeiro. A razão era cronológica: acreditava-se que Hermes fosse contemporâneo de Moisés, ou anterior a ele, e portanto que ali estivesse a revelação mais antiga, da qual Platão seria herdeiro tardio. Ficino terminou em poucos meses, e a tradução saiu impressa em 1471.

O efeito foi enorme. A ideia de uma sabedoria primordial transmitida desde a origem — a prisca theologia — organizou o pensamento renascentista e abriu caminho para que Pico della Mirandola propusesse a concórdia entre todas as tradições. Sem esse episódio, não existiriam a cabala cristã, a magia natural de Ficino, nem boa parte do que veio depois. O hermetismo é o solo em que o esoterismo ocidental moderno cresceu.

Vale reparar num traço formal do corpus que costuma passar batido e que diz muito sobre o método. Quase todos os tratados são diálogos, e diálogos entre mestre e discípulo — Hermes e Tot, Hermes e Asclépio, Hermes e seu filho. O texto não expõe uma doutrina: encena uma transmissão, com perguntas mal formuladas, interrupções e momentos em que o mestre recusa responder porque o discípulo ainda não está em condição de ouvir. A forma é conteúdo. Quem lê o Corpus como tratado perde metade do que ele faz.

Em 1614, o filólogo Isaac Casaubon examinou a língua do Corpus e mostrou que aquele grego pertence aos primeiros séculos da era cristã, não à época de Moisés. A datação hoje aceita situa a redação entre os séculos I e III, no Egito helenizado. A demonstração é sólida e ninguém a contesta.

Atenção: Repare no que aconteceu depois, porque é o dado mais instrutivo desta lição. O hermetismo não desapareceu com a correção de Casaubon. Continuou produzindo obra, fundando escolas e formando gente por mais quatro séculos, até hoje. A datação mudou; o que os textos têm a dizer permaneceu exatamente onde estava. É a melhor demonstração disponível de que a idade de um texto e o valor do que ele transmite são coisas independentes — e vale guardar isso, porque a mesma situação vai reaparecer em várias vias adiante.

Há ainda uma questão sobre a qual a erudição mudou de posição, e conhecê-la enriquece a leitura. Durante décadas os tratados foram vistos como produto grego com verniz egípcio — filosofia platônica e estoica fantasiada de sabedoria oriental. A descoberta de textos herméticos em copta entre os códices de Nag Hammadi, em 1945, e o trabalho de estudiosos como Garth Fowden deslocaram essa leitura. Hoje se reconhece no Corpus um ambiente de fato egípcio-helenístico, em que a herança sacerdotal local pesa mais do que se supunha. Hermes é grego e é egípcio, e a mistura é o conteúdo.

Uma distinção final, que evita anos de confusão bibliográfica. O Caibalion, publicado em 1908 por três iniciados anônimos, não pertence ao corpus antigo: é obra do século XX, ligada ao movimento norte-americano do Novo Pensamento, e expõe os sete princípios herméticos numa formulação que não se encontra em nenhum texto anterior. É um livro útil e claro, e muita gente entra no hermetismo por ele. Só não é fonte antiga, e quem o cita como se fosse acaba atribuindo a Hermes o que é de 1908.

As três partes da filosofia hermética

  • Alquimia: a operação sobre a matéria, e por correspondência sobre quem opera. Responde a como a transformação acontece.
  • Astrologia: a leitura das correspondências entre os planos. Fornece o vocabulário — os sete princípios que reaparecem nos metais, nos dias e nos gestos rituais.
  • Teurgia: a operação ritual sobre os planos superiores. É a parte que o Asclépio defende com mais ênfase, e a que mais desconforto causou aos leitores cristãos do Renascimento.

Essa tripartição não é invenção posterior: ela organiza o próprio corpo de textos e reaparece em praticamente todos os autores herméticos do Renascimento. Vale guardá-la como mapa, porque ela explica a estrutura deste percurso. Astrologia, alquimia e a ritualística que vem no terceiro ciclo de cada via são as três pernas da mesma mesa, e nenhuma se sustenta sem as outras duas.

Na prática: Se for ler os textos originais, comece pelo Poimandres, e leia duas vezes — a primeira para acompanhar a narrativa, a segunda reparando no que ele pede de quem lê. Procure edição feita a partir do grego, com notas. As versões curtas que circulam na internet costumam ser retraduções de retraduções, e o hermetismo é justamente o tipo de texto em que a escolha de uma palavra muda o parágrafo inteiro.

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