Aurea ConcordiaGnosticismo

O que é Gnosticismo

Gnose, demiurgo e a centelha

Gnose, em grego, é conhecimento — mas não o conhecimento que se obtém por raciocínio ou por informação. É o conhecimento por contato direto, aquele que muda quem conhece. Os movimentos do século II que chamamos gnósticos afirmam que a salvação vem daí, e não da fé nem da observância.

Os motivos recorrentes

  • Um Deus verdadeiro, transcendente e desconhecido, sem relação direta com o mundo material.
  • Um demiurgo, artífice inferior — em vários textos chamado Ialdabaoth — que fabrica o mundo material e se julga o único deus.
  • Uma centelha divina aprisionada no ser humano, esquecida de sua origem.
  • Um mensageiro que desce para despertar essa centelha pela transmissão do conhecimento.
  • O retorno da centelha ao pleroma, a plenitude de onde veio.

A consequência dessa arquitetura é o que torna o gnosticismo distinto de quase tudo à sua volta: se o mundo material é obra de um artífice inferior, então o desconforto de estar aqui não é falha de quem sente — é diagnóstico correto. É uma inversão radical, e explica tanto a atração que esses textos exercem quanto a violência com que foram combatidos.

CorrenteLigada aTraço
ValentinianaValentino, séc. IIa mais elaborada; permaneceu dentro de comunidades cristãs
Setianatextos de Setmitologia própria, Ialdabaoth, Barbelo
BasilidianaBasilides, Alexandriasistema de emanações sucessivas

Atenção: Cuidado com a palavra 'gnosticismo' — ela é moderna. Michael Williams e Karen King mostraram que a categoria foi montada no século XX reunindo grupos muito diferentes, e que boa parte da descrição vem dos heresiólogos, isto é, dos adversários: Irineu, Hipólito, Epifânio. Descrever um movimento pelo que seus inimigos escreveram sobre ele produz distorção previsível. Use o termo, mas saiba que ele é ferramenta de classificação, não nome que esses grupos dessem a si mesmos.

Na prática: Vale distinguir o gnosticismo antigo do uso contemporâneo da palavra 'gnose', que aparece em correntes posteriores com sentidos próprios. Quando a mesma palavra reaparece séculos depois, convém perguntar o que cada corrente quer dizer com ela antes de supor que dizem o mesmo.

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