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O que é Iniciação

O sentido de um começo deliberado

Iniciação vem do latim initium, começo, e do verbo initiare, fazer entrar. Em Roma, a palavra no plural — initia — designava diretamente os mistérios: os ritos fechados a que só se tinha acesso por admissão. A escolha do termo já diz o essencial. Não se trata de aprender sobre alguma coisa; trata-se de entrar nela.

A formulação mais precisa que a Antiguidade nos deixou sobre isso é atribuída a Aristóteles, e chegou até nós por Sinésio de Cirene: quem era iniciado nos mistérios de Elêusis não ia lá para aprender algo, mas para atravessar algo — e para ficar num certo estado depois de ter atravessado. O grego opõe duas palavras, mathein, aprender, e pathein, sofrer no sentido de experimentar, passar por. A iniciação pertence ao segundo verbo.

A frase vale ser guardada inteira, porque ela define o campo: não aprender, mas experimentar — e ser disposto de outro modo.

Elêusis é o melhor exemplo disponível porque durou. Os mistérios em honra a Deméter e Perséfone foram celebrados por cerca de dois mil anos, até serem encerrados no fim do século IV da nossa era. Dezenas de milhares de pessoas passaram por eles — atenienses, estrangeiros, escravos, imperadores romanos. E o segredo aguentou. Sabemos o calendário, o percurso da procissão, a duração, o preço, mas não sabemos o que acontecia na sala final. Nenhum iniciado escreveu. Esse silêncio coletivo, mantido por vinte séculos, é um dado histórico extraordinário e diz mais sobre a natureza do que se transmitia do que qualquer descrição diria.

Há uma exceção parcial, e é preciosa. No século II, Apuleio escreveu o romance conhecido como O Asno de Ouro, e o último livro narra em primeira pessoa a iniciação do personagem Lúcio nos mistérios de Ísis. É o relato mais próximo que temos de uma experiência iniciática antiga contada por dentro. E o que Apuleio faz, no momento decisivo, é interromper: diz ao leitor que contaria se pudesse, que o leitor ouviria com interesse, e que não pode. Depois descreve apenas o limite — ter chegado à fronteira da morte, ter pisado o umbral e voltado. Mais que isso, não.

Instrução comumInstrução iniciática
Acumula informaçãoPropõe transformação
Verifica por provaVerifica por mudança de conduta
Ensina o que pensarPropõe como olhar
Termina com o cursoNão tem termo previsto
Quem ensina detém o conteúdoQuem ensina indica o caminho

Convém distinguir três coisas que a palavra cobre e que funcionam de modos diferentes. A iniciação de passagem marca uma mudança de estado social — de criança a adulto, de solteiro a casado — e é reconhecida pela comunidade inteira. A iniciação religiosa integra alguém a uma comunidade de fé, com o batismo como exemplo mais próximo de nós. E a iniciação propriamente iniciática propõe um trabalho de conhecimento de si, organizado por etapas, sem que a comunidade em torno saiba ou precise saber.

As três formas, lado a lado

  • De passagem: muda o lugar da pessoa no grupo. Quem decide é a comunidade, e o resultado é visível a todos.
  • Religiosa: muda o vínculo da pessoa com o sagrado dentro de uma tradição. Quem administra é a instituição.
  • Iniciática: muda a relação da pessoa consigo mesma. Quem faz o trabalho é ela, e o resultado pode não ser visível a ninguém.

A estrutura em graus, que quase todas as escolas adotam, costuma ser mal compreendida. Ela não existe para criar hierarquia entre pessoas, e sim porque certos temas não fazem sentido antes de outros — do mesmo modo que não se estuda cálculo antes de aritmética. Um grau é uma etapa de compreensão. Quando vira posto de poder, a escola deixou de fazer o que se propunha e passou a fazer outra coisa, e isso acontece com frequência suficiente para valer o aviso.

Atenção: Um ponto de honestidade logo na primeira lição: nenhuma escola confere sabedoria a ninguém. O que uma tradição oferece é método, símbolo, companhia e uma sequência testada por muita gente antes. O trabalho é individual e voluntário, e sempre foi. Isto vale também para a Aurea Concordia: aqui você encontra o mapa e as ferramentas, e quem caminha é você.

Um último esclarecimento, porque ele evita anos de mal-entendido. Iniciação não é sinônimo de experiência intensa. Uma noite marcante, uma emoção forte durante um rito, uma visão — nada disso é iniciação por si. O que define é haver um antes e um depois reconhecíveis na conduta, e isso só se verifica com tempo decorrido. As tradições são unânimes nesse ponto e costumam ser bem secas a respeito: quem sai de um rito falando muito sobre o que sentiu geralmente ainda está no rito, não depois dele.

Na prática: Guarde a oposição entre mathein e pathein — ela vai reaparecer em todas as vias deste percurso. Quando você encontrar um texto hermético, alquímico ou cabalístico que parece obscuro sem motivo, considere a possibilidade de que ele não esteja tentando informar, e sim produzir um efeito em quem lê. Muita coisa que parece confusa deixa de parecer quando se troca a pergunta de 'o que isto quer dizer' para 'o que isto quer fazer comigo'.

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