Aurea ConcordiaCabala

O que é Cabala

Origens judaicas e recepção ocidental

Cabala vem do hebraico qabbalah, formada sobre a raiz que significa receber. Não designa um conteúdo, e sim um modo de transmissão: é aquilo que se recebe de alguém, por transmissão viva, em oposição ao que se descobre sozinho. O nome já diz o essencial sobre o que a tradição pensa de si mesma.

É a corrente mística do judaísmo, e essa frase precisa ser levada a sério antes de qualquer outra coisa. A Cabala nasce dentro de uma religião viva, opera sobre um texto específico — a Torá, em hebraico —, pressupõe a prática dos mandamentos e foi elaborada por gerações de estudiosos que eram, antes de tudo, judeus observantes. Tudo o que o Ocidente fez com ela depois é recepção, e recepção é outra coisa que herança.

Atenção: Distinguir três correntes evita a maior parte da confusão que existe sobre o assunto. A CABALA JUDAICA é a tradição religiosa, estudada em contexto judaico e ligada ao hebraico. A CABALA CRISTÃ surge no Renascimento, relendo a estrutura em chave cristã. A CABALA HERMÉTICA, dos séculos XIX e XX, associa a Árvore da Vida ao tarô, à astrologia e à magia cerimonial. Este curso trata sobretudo da terceira — e o faz dizendo de onde ela vem, porque usar a estrutura sem mencionar quem a construiu seria desonesto com a tradição que a criou.

Há inclusive uma convenção de grafia que ajuda, difundida a partir do esoterismo inglês do século XX e útil mesmo em português. Kabbalah, com k, para a judaica; Cabala, com c, para a cristã renascentista; Qabalah, com q, para a hermética. Nem todo autor a segue, mas quando alguém a usa, está lhe dizendo de qual das três está falando.

ObraÉpocaImportância
Sefer Yetsiráséc. III–VIprimeiro texto sobre as dez sefirot e as trinta e duas vias
Bahirc. 1180, Provençaintroduz o simbolismo da árvore e a leitura simbólica das sefirot
Zoharfim do séc. XIII, Castelaobra central da cabala clássica, escrita em aramaico
Pardes Rimonim1548, Safeda sistematização de Cordovero
Ets Chayimséc. XVI–XVIIo ensino de Isaac Luria, registrado por seus discípulos

O Zohar merece um parágrafo próprio, porque a questão da sua autoria é o melhor exemplo do que esta escola ensina sobre procedência. A obra se apresenta como registro dos ensinamentos de Shimon bar Yochai, mestre do século II, e assim foi recebida por séculos. A crítica textual moderna, a partir de Scholem, situa a redação na Castela do fim do século XIII e aponta Moisés de León como responsável pela composição — pelo aramaico empregado, por traços de castelhano na sintaxe e por referências a realidades da época.

O que isso muda depende inteiramente do que se esperava dele. Se a questão era a data, ela mudou. Se a questão é o que o texto sustenta, ele continua sendo a obra mais influente da mística judaica, estudada com seriedade há sete séculos por gente que dedicou a vida a isso. E a própria tradição tem resposta para a objeção: o autor se apresenta como transmissor, e não como inventor — o que, dentro do quadro de uma tradição que se define por receber, é afirmação coerente.

Vale uma palavra sobre o que a Cabala faz com o texto, porque é o que mais distingue esta tradição de qualquer outra deste curso. Ela não lê a Torá como narrativa: lê como estrutura. As letras têm valor numérico, e palavras de mesmo valor se iluminam mutuamente — é a gematria. Letras iniciais de uma sequência formam outra palavra — é o notarikon. Letras são trocadas segundo tabelas de substituição — é a temurá. Nada disso é jogo: pressupõe que o texto seja de origem não humana e que portanto cada detalhe seja intencional, inclusive os que parecem acidente de escrita.

Daí decorre uma consequência que vale para todas as vias adiante. Se o texto é estrutura e não relato, então a leitura pode descer a níveis que a narrativa não alcança — e os quatro sentidos da Escritura que você viu em Simbolismo têm, na tradição judaica, um nome próprio formado pelas iniciais de cada nível: pshat, remez, drash e sod, que compõem a palavra pardes, pomar. Quem entra no pomar percorre os quatro, e o quarto, sod, o segredo, é o território da Cabala.

O momento seguinte é decisivo e costuma ser pulado. No século XVI, a cidade de Safed, na Galileia, reúne uma concentração de mestres sem paralelo. Ali Moisés Cordovero produz a grande sistematização, organizando séculos de material disperso num corpo coerente. E ali ensina Isaac Luria, o Ari, que morre aos trinta e oito anos tendo escrito quase nada e cujo ensino chega até nós pelos registros dos discípulos — sobretudo Chaim Vital. A reformulação luriânica é tão poderosa que passa a ser, para boa parte do judaísmo posterior, a Cabala sem adjetivo.

A recepção cristã começa em 1486, quando Giovanni Pico della Mirandola apresenta em Roma novecentas teses para debate público, várias delas cabalísticas, sustentando que nenhuma ciência prova melhor a divindade de Cristo do que a magia e a cabala. A tese escandalizou, o debate foi proibido, e a ideia pegou. Johannes Reuchlin dá a ela forma erudita em 1517, e no fim do século XVII Knorr von Rosenroth publica a Kabbala Denudata, tradução latina de partes do Zohar — o texto através do qual a Europa cristã leu a Cabala por duzentos anos.

A corrente hermética nasce dessa linhagem, e nasce tarde. No século XIX, Éliphas Lévi liga os vinte e dois caminhos da Árvore aos vinte e dois arcanos do tarô. Em 1887, MacGregor Mathers traduz para o inglês partes da Kabbala Denudata, e a Golden Dawn constrói sobre esse material o sistema de correspondências que estrutura praticamente toda a magia cerimonial posterior. É esse o material que chega ao leitor de hoje quando ele abre um livro de esoterismo — e ele está três traduções e sete séculos distante do Zohar.

Um episódio do século XVII explica muita coisa sobre a história posterior da Cabala e quase nunca é contado. Em 1666, Shabtai Tsvi, que havia sido proclamado messias e arrastara consigo comunidades judaicas da Europa ao Oriente Médio, converteu-se ao islã sob pressão do sultão otomano. O colapso foi devastador, e a Cabala, que dera linguagem ao movimento, saiu dele sob suspeita em boa parte do mundo judaico. A desconfiança com o estudo cabalístico desregrado, que sobrevive até hoje, tem ali uma das suas raízes.

A resposta veio no século seguinte, e por um caminho inesperado. O hassidismo, movimento nascido na Europa oriental em torno do Baal Shem Tov, tomou o material luriânico e o reorientou: menos especulação sobre os mundos superiores, mais devoção, alegria e a ideia de que o encontro com o divino acontece no gesto comum. Foi a via pela qual a Cabala deixou de ser assunto de poucos eruditos e passou a informar a vida religiosa de comunidades inteiras.

Atenção: Nada disso desqualifica a Cabala hermética, e vale dizer por quê. Uma tradição de cento e cinquenta anos, elaborada por gente séria e usada por milhares de praticantes, é uma tradição respeitável — e este curso trabalha com ela. O que não se pode é apresentá-la como se fosse a judaica, nem atribuir a rabinos medievais correspondências que foram estabelecidas em Londres em 1890. Saber em que camada se está pisando é a diferença entre estudar e repetir.

Uma pergunta prática que aparece sempre: é preciso ser judeu para estudar Cabala? Para a corrente judaica, o estudo sério é inseparável do hebraico, do texto bíblico e da vida religiosa — quem quiser percorrê-la deve procurar quem a ensina em contexto judaico, e esta escola não substitui isso. Para a corrente hermética, que é a que se estuda aqui, não há tal exigência, e nunca houve: ela foi construída por não judeus desde o começo. O que se pede é a honestidade de não confundir uma com a outra.

Vale desfazer também uma ideia muito repetida: a de que só se pode estudar Cabala aos quarenta anos, casado e com filhos. A restrição existe como costume em parte do mundo judaico, apoiada em preocupação real com o preparo de quem se aproxima de material difícil, mas nunca foi regra universal e não consta dos textos fundadores. Alguns dos maiores cabalistas da história a contrariaram — Luria ensinava em Safed e morreu aos trinta e oito.

Na prática: Para acompanhar a história com rigor, vale conhecer a produção acadêmica de Gershom Scholem, que fundou o estudo científico da mística judaica, e de Moshe Idel, que o corrigiu em pontos importantes. Eles distinguem com precisão o que é tradição judaica do que é releitura ocidental — distinção que a literatura esotérica popular costuma apagar, e que esta via mantém do começo ao fim.

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